O presidente Donald Trump enfrenta na sexta-feira um prazo legal importante que poderá determinar o futuro das operações militares contra o Irão, mesmo com a administração dos EUA a indicar que poderá contar com interpretações controversas da lei para contornar a aprovação do Congresso.
Nos termos da Resolução sobre Poderes de Guerra de 1973, o presidente dos EUA deve suspender a acção militar no prazo de 60 dias após a notificação do Congresso, a menos que os legisladores aprovem a operação.
A administração Trump notificou formalmente o Congresso em 2 de março e estabeleceu o prazo final para 1º de maio, após a ofensiva conjunta EUA-Israel que começou em 28 de fevereiro.
Mas os responsáveis da administração argumentam agora que este prazo pode não se aplicar, argumentando que o cessar-fogo com o Irão, que está em vigor desde 7 de Abril, põe efectivamente fim às “relações hostis” nos termos da lei. Um alto funcionário disse aos repórteres que o conflito foi “encerrado” para fins de poderes de guerra, permitindo que a Casa Branca continuasse as operações sem buscar a aprovação do Congresso.
O secretário de Defesa, Pete Hegseth, reforçou essa posição em depoimento no Congresso na quinta-feira, dizendo que o relógio legal “faz uma pausa ou para em um cessar-fogo”.
A alegação provocou uma reação feroz de legisladores e especialistas jurídicos que argumentaram que a Resolução dos Poderes de Guerra não continha tal disposição.
O senador democrata Tim Kaine rejeitou categoricamente esta interpretação, dizendo: “O estatuto não permite ao presidente suspender as restrições de 60 dias ao abrigo do acordo de cessar-fogo”. A sua oposição reflecte preocupações mais amplas entre os Democratas de que a administração esteja a tentar contornar a autoridade constitucional do Congresso para declarar guerra.
A Resolução dos Poderes de Guerra foi promulgada imediatamente após a Guerra do Vietname para evitar que o presidente se envolvesse em conflitos militares prolongados sem supervisão legislativa. Exige que o presidente busque a aprovação do Congresso ou retire as tropas no prazo de 60 dias, o que pode ser prorrogado por 30 dias em circunstâncias limitadas.
Analistas jurídicos dizem que a confiança do regime na lacuna do cessar-fogo é altamente questionável. Os especialistas observam que a lei não menciona um cessar-fogo como base para reiniciar ou suspender o relógio, especialmente se a pressão militar, incluindo um bloqueio naval, continuar.
Alguns juristas também observam que os presidentes exageraram ou ignoraram a Resolução sobre Poderes de Guerra, argumentando frequentemente que é inconstitucional ou não se aplica a operações militares limitadas.
Mas os críticos argumentam que a escala do actual conflito com o Irão, que inclui ataques prolongados e uma guerra económica, torna esse argumento difícil de sustentar.
A resposta política no Congresso continua profundamente dividida. Os democratas introduziram repetidamente resoluções para forçar a administração a solicitar autorização ou a suspender as operações militares. Todos estes esforços falharam em ambas as câmaras, em grande parte ao longo das linhas partidárias.
A maioria dos republicanos, que controlam estreitamente o Congresso, ou apoia o presidente ou evita o confronto direto. “Não temos planos imediatos de votar para autorizar a guerra, reflectindo a relutância generalizada dentro do nosso partido em desafiar a autoridade do Presidente Trump”, disse o líder da maioria no Senado, John Thune, num comunicado.
Ao mesmo tempo, alguns legisladores republicanos expressam preocupações. A senadora Susan Collins disse que o limite de 60 dias “não era uma sugestão, é um requisito” e alertou que qualquer ação militar adicional exigiria uma estratégia clara e a aprovação do Congresso.
O debate destaca tensões constitucionais de longa data entre os poderes executivo e legislativo dos EUA sobre os poderes de guerra. Embora o presidente sirva como comandante-em-chefe, a Constituição dá ao Congresso o poder de declarar guerra, mas este equilíbrio tem pendendo cada vez mais para o poder executivo nas últimas décadas.
Para além de Washington, a incerteza jurídica está a surgir no meio de um cessar-fogo frágil e incompleto entre os Estados Unidos e o Irão. Embora os intercâmbios militares directos tenham cessado, ambos os lados continuam a exercer pressão através de meios económicos e estratégicos.
O Irão restringiu efectivamente o transporte marítimo através do Estreito de Ormuz, uma artéria fundamental para o abastecimento energético mundial, e os Estados Unidos responderam com um bloqueio naval contra as exportações de petróleo iranianas. O impasse contribuiu para desestabilizar os mercados petrolíferos globais, com os preços a subirem nos últimos dias devido ao receio de uma turbulência prolongada.
Os esforços diplomáticos até agora não conseguiram produzir um avanço. Falando na Casa Branca, o presidente Trump rejeitou as sugestões de que as negociações estavam paralisadas, dizendo que apenas algumas autoridades conheciam os detalhes e alegando que o Irão “quer um mau acordo”.
Entretanto, os planeadores militares dos EUA estão a preparar opções caso o cessar-fogo seja interrompido. O Comando Central dos EUA está supostamente a desenvolver um plano para vagas “curtas e poderosas” de ataques destinados a forçar o Irão a voltar às negociações.
Outras opções que estão a ser consideradas incluem garantir o armazenamento de urânio altamente enriquecido do Irão e obter o controlo das principais rotas marítimas.
Os analistas prevêem que a administração Trump poderá, em última análise, optar por ignorar o prazo ou reinterpretar o cessar-fogo como o fim de uma fase do conflito e o início de outra, reiniciando efectivamente o relógio legal.
Tal medida provavelmente intensificaria os desafios jurídicos e políticos e poderia preparar o terreno para um impasse constitucional mais amplo entre o Congresso e a Casa Branca.

