Face às crescentes pressões fiscais, ao aumento da inflação e ao crescente descontentamento público, os estados estão sob enorme pressão para estabilizar as suas economias e, ao mesmo tempo, reconstruir a confiança na sua governação.
Para cumprir as principais condições do Fundo Monetário Internacional (FMI), o governo federal planeia arrecadar mais 1,1 biliões de rupias em receitas no próximo ano fiscal através de uma combinação de medidas federais e estaduais. Mas por trás destes números existe uma questão mais profunda. Poderá o Paquistão realmente reformar as suas instituições sem combater todas as formas de corrupção?
A estratégia de receitas do governo é ambiciosa. Do montante total adicional da meta, espera-se que aproximadamente 680 mil milhões de rúpias venham do lado federal, principalmente através de um aumento significativo na Receita Federal (FBR) e na taxa sobre o petróleo.
Ao mesmo tempo, as autoridades estão a planear uma repressão administrativa agressiva à evasão fiscal. Prevê-se que as receitas anti-evasão fiscal dupliquem para 778 mil milhões de rupias devido a um sistema fiscal “sem rosto”, auditoria rigorosa, facturação digital e integração de dados bancários em tempo real. O imposto sobre o consumo líquido também deverá aumentar com a adição de bens de consumo de rápida evolução.
Durante décadas, os apelos ao combate à corrupção foram ruidosos e de curta duração no Paquistão, com a repressão a fraquejar à medida que interesses políticos intervinham.
Entretanto, foram atribuídos aos governos locais cerca de 4 biliões de rupias em responsabilidades adicionais em matéria de receitas, incluindo a tributação do rendimento agrícola, o alargamento da aplicação do imposto sobre vendas e a melhoria da cobrança do imposto sobre a propriedade.
Estas reformas não são apenas ajustes técnicos. Estas representam um reconhecimento de que a crise fiscal do Paquistão está profundamente ligada à corrupção, à evasão fiscal e a estruturas de governação fracas.
O FMI estima que a corrupção, a ocultação de rendimentos e a evasão fiscal custam ao Paquistão cerca de 3,4 biliões de rúpias anualmente. Isto corresponde a aproximadamente 3,9% do PIB.
A retórica anticorrupção tem sido forte no Paquistão há décadas, mas foi passageira. O governo anuncia a repressão em termos dramáticos, mas o ímpeto só morre quando os interesses políticos intervêm. O que o Paquistão precisa hoje não é de responsabilização selectiva e de detenções televisivas, mas de esforços estruturais e sustentáveis de combate à corrupção que transformem os sistemas, e não as manchetes.
Uma das reformas mais importantes propostas é um sistema de declaração de bens públicos que abrangerá todos os funcionários do 17º ao 22º grau até Dezembro de 2026. Se for devidamente implementada, esta medida poderá mudar fundamentalmente a cultura de sigilo burocrático que existe há décadas.
Igualmente importante é a proposta de dar aos bancos acesso a estes retornos para identificar aparentes discrepâncias entre rendimentos e activos. A transparência financeira já não é uma opção num país onde os funcionários públicos com baixos salários acumulam frequentemente riqueza inexplicável, bens imobiliários luxuosos e activos estrangeiros.
A urgência da reforma torna-se mais clara quando examinamos os dados recentes. Dos cerca de 5,9 milhões de declarações fiscais apresentadas recentemente, quase 43% reportaram rendimento zero. Estes números revelam a escala da subnotificação e das deficiências nos mecanismos de aplicação.
Outra sugestão encorajadora é identificar os 10 ministérios governamentais em maior risco para uma estratégia anticorrupção específica até Outubro de 2026. A proposta para o Gabinete Nacional de Auditoria (NAB) realizar avaliações de vulnerabilidade profissional sinaliza uma mudança da responsabilidade reactiva para a governação proactiva. Contudo, nenhum quadro anticorrupção pode ser bem sucedido a menos que o próprio NAB seja seriamente reformado.
A história de responsabilização do Paquistão continua marcada por alegações de manobras políticas, processos seletivos e abusos institucionais. Portanto, pode ser importante que as alterações à Portaria do NAB sejam propostas até Janeiro de 2027. Um processo transparente e meritocrático para a selecção do presidente do NAB, envolvendo membros da oposição, representantes judiciais e a sociedade civil, poderia ajudar a restaurar a credibilidade do NAB, que sofreu graves danos na sua imagem pública.
A transparência nas instituições de responsabilização é igualmente importante. A publicação on-line dos procedimentos operacionais, das estatísticas anuais e dos registros de aplicação do NAB garantiria que o órgão de fiscalização responsável permanecesse responsável. A legitimidade das instituições deriva não apenas da autoridade legal, mas também da confiança da sociedade.
As instalações locais anticorrupção também precisam de ser reforçadas urgentemente. A corrupção é muitas vezes sentida mais directamente a nível distrital e estatal, onde os residentes interagem diariamente com patwaris, empreiteiros, funcionários da polícia, funcionários de órgãos judiciais inferiores e autoridades licenciadoras. Portanto, é de extrema necessidade dotar as agências de supervisão locais com poderosas ferramentas de investigação e capacidades de inteligência financeira.
A mesma lógica se aplica às empresas estatais (SOEs). As empresas públicas têm servido durante muito tempo como centros de ineficiência, clientelismo e perdas financeiras.
De acordo com relatórios recentes, a perda líquida ajustada da carteira de empresas estatais do Paquistão aumentou acentuadamente de 30,6 mil milhões de rupias no EF24 para 122,9 mil milhões de rupias no EF25. Somente a National Highway Corporation sofreu perdas próximas a Rs 2.950 milhões.
Em nenhum lugar a crise é mais evidente do que no sector da energia. A ineficiência das empresas de distribuição causada por roubo e má recuperação levou a um aumento na dívida circular de quase 3.970 milhões de rupias apenas no AF25. A dívida circular total é superior a 1,5 biliões de rupias, enquanto a dívida aos produtores independentes de energia e as obrigações de pensões não financiadas continuam a aumentar. Estas perdas recaem, em última análise, sobre os contribuintes e consumidores que já sofrem com o aumento dos custos dos serviços públicos.
Igualmente sensível do ponto de vista político é a política proposta de liberalização do mercado do açúcar. As repetidas crises do açúcar, a manipulação de preços, o entesouramento e as controversas aprovações de exportação reforçaram a percepção pública de que as decisões de política económica servem frequentemente os cartéis e não os consumidores.
A simplificação fiscal é em si uma estratégia anticorrupção e é outra proposta de reforma em consideração. Afinal de contas, um sistema fiscal complexo cria um terreno fértil para o suborno, acordos discricionários e assédio.
Publicado no Business and Finance Weekly Dawn em 25 de maio de 2026

