Numa recente aparição num podcast, o investidor Ray Dalio argumentou que é pouco provável que as moedas fiduciárias continuem a ser a forma dominante de dinheiro no mundo, argumentando que o actual sistema financeiro faz parte de um “ciclo dívida-dinheiro” de longo prazo que está a começar a ruir.
resumo
Ray Dalio argumentou num podcast recente que o sistema monetário global está a afastar-se do domínio das moedas fiduciárias. Ele alerta que o aumento da dívida, as pressões inflacionistas e as divisões geopolíticas estão a minar a confiança nas moedas emitidas pelo Estado. Dalio sugere que a próxima estrutura de reservas globais poderia ser mais diversificada, com alternativas como o ouro a desempenhar um papel mais importante.
A teoria central de Dalio é que o aumento da dívida pública, os riscos de inflação persistentes e a crescente polarização geopolítica estão a minar a confiança no sistema fiduciário. Ele sugere que a ordem mundial está a evoluir no sentido de uma estrutura financeira mais multipolar, em vez de um sistema de reservas liderado por uma moeda única.
Embora a entrevista completa do podcast não tenha sido oficialmente transcrita num só local, as observações de Dalio são consistentes com os seus extensos comentários públicos, nos quais reiterou que “todas as moedas fiduciárias acabam por enfrentar as mesmas pressões”, uma vez que a dívida cresce mais rapidamente do que o rendimento e as autoridades monetárias são forçadas a ciclos repetidos de criação de dinheiro.
“Não há garantia de que as moedas fiduciárias se tornarão dominantes.”
O argumento de Dalio centra-se na ideia de que o domínio das moedas de reserva é historicamente cíclico e não permanente. Na sua opinião, os sistemas baseados em moedas fiduciárias tendem a enfraquecer quando os níveis de dívida aumentam rapidamente e a confiança nos balanços dos governos se deteriora.
Anteriormente, ele apontou desenvolvimentos históricos, como a depreciação da libra esterlina e a valorização do dólar americano, como prova de que as mudanças nas condições económicas e geopolíticas fundamentais acabarão por levar a uma mudança para um regime de moeda de reserva.
Durante a discussão do podcast, Dalio enfatizou que é improvável que o próximo sistema monetário global seja dominado por uma única moeda fiduciária. Em vez disso, descreveu um mundo em que competem múltiplas reservas de valor, especialmente em tempos de tensão geopolítica e de stress financeiro.
Esta visão é consistente com a sua teoria mais ampla de que as moedas fiduciárias perdem poder de compra durante ciclos de forte dívida e que em tempos de instabilidade o capital recorre a reservas alternativas de valor, como o ouro.
O ciclo da dívida, a geopolítica e o “fim da simplificação financeira”
Dalio enquadra o ambiente actual como parte de um “grande ciclo” mais amplo impulsionado por cinco forças: dívida crescente, conflito político interno, conflito geopolítico, perturbação natural e mudança tecnológica. Ele argumenta que quando estas forças interagem, o sistema monetário torna-se menos estável e mais fragmentado.
Ele também alertou noutras entrevistas recentes que os crescentes défices orçamentais e os custos dos juros estão a forçar os governos a fazer difíceis compromissos entre gastos, empréstimos e controlo da inflação. Num tal cenário, argumenta ele, as moedas fiduciárias tornam-se menos fiáveis como reservas de riqueza a longo prazo.
É importante ressaltar que Dalio não afirma que o sistema jurídico entrará em colapso imediatamente. Pelo contrário, sugere uma perda gradual de controlo à medida que a confiança nas moedas soberanas enfraquece e o capital se diversifica cada vez mais em activos e sistemas alternativos.
Isto inclui coberturas tradicionais, como o ouro, mas também estruturas emergentes de ativos digitais e instrumentos financeiros transfronteiriços que operam fora dos controlos monetários de um único país.
Transição do domínio da moeda única para o dinheiro do portfólio
A implicação mais ampla do argumento de Dalio é que a próxima fase das finanças globais poderá não ser definida por uma moeda de reserva dominante.
Em vez disso, ele descreve um mundo financeiro “semelhante a um portfólio”, onde as reservas são divididas entre moedas e activos não fiduciários, dependendo do alinhamento geopolítico, da sustentabilidade da dívida e do risco de inflação.
Isto reflecte uma mudança estrutural em relação ao sistema pós-Bretton Woods, onde a liderança da moeda fiduciária apoiada pelo dólar dominava o comércio global, as reservas cambiais e os mercados de crédito.
No quadro de Dalio, a questão chave já não é se as moedas fiduciárias sobreviverão, mas como o seu papel nas carteiras globais irá diminuir à medida que os investidores e os bancos centrais se protegem contra o risco de descidas a longo prazo nos preços dos terrenos.
Tal como sublinhou repetidamente em entrevistas e podcasts, a tensão definidora da próxima década poderá residir entre o aumento da dívida pública e a diminuição da confiança nas moedas em que essa dívida é financiada.

